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CORRELAÇÃO CLÍNICO-CIRÚRGICA

Mixoma em ventrículo direito e valva tricúspide

Ulisses Alexandre CrotiI; Domingo M BraileI; Antônio Soares SouzaI; Patrícia Maluf CURYI

DOI: 10.1590/S0102-76382008000100026

DADOS CLÍNICOS

Adolescente com 15 anos, 47,3kg, sexo feminino, branca, natural de Anhumas, SP. Há um ano iniciou quadro de cansaço e taquipnéia aos moderados esforços, seguido de cianose labial e de extremidades, a qual melhorava com repouso. Encaminhada ao cardiologista na cidade de origem, foi diagnosticada massa em ventrículo direito e orientado uso de ácido acetilsalicílico. Em nosso Serviço, apresentava-se em bom estado geral, eupneica e acianótica ao repouso, hidratada, corada. Ausculta cardíaca e pulmonar normais, abdome sem alterações e pulsos palpáveis e simétricos nos quatro membros.


ELETROCARDIOGRAMA

Ritmo sinusal, freqüência 88 bat/mim, SÂP +60º, SÂQRS + 90º, QTc 0,42s. Intervalo PR e demais segmentos dentro dos valores de normalidade. Distúrbio de condução elétrica pelo ramo direito evidenciado pelo padrão RSR' em V1.


RADIOGRAMA, TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA E RESSONÂNCIA NUCLEAR MAGNÉTICA

Situs solitus visceral em levocardia. Área cardíaca dentro dos limites de normalidade, transparência dos campos pleuro-pulmonares normais e cúpulas diafragmáticas livres.

A tomografia computadorizada de alta resolução, após infusão de contraste, demonstrou imagem hipodensa no ventrículo direito (VD) e ausência de linfonodomegalia mediastinal e hilar (Figura 1).


Fig. 1 - Tomografia computadorizada do tórax após contraste endovenoso - Imagem hipodensa em topografia do átrio direito



Na ressonância nuclear magnética, pôde-se observar lesão grosseiramente ovalar, com sinal semelhante ao músculo cardíaco na ponderação T2, localizada no interior do VD, medindo 50X40mm no seu maior eixo (Figura 2).


Fig. 2 - Ressonância nuclear magnética - Seqüências ponderadas em T2 - Imagem com intensidade de sinal semelhante ao músculo cardíaco no ventrículo direito



ECOCARDIOGRAMA

Situs solitus em levocardia. Conexões venoatrial, atrioventricular e ventrículo-arterial concordantes. Presença de massa pediculada, pouco móvel em ventrículo direito, justapondo-se ao folheto septal da valva tricúspide, medindo aproximadamente 30x10mm, sem restrição ao enchimento do VD e com regurgitação valvar tricúspide discreta.


DIAGNÓSTICO

Os mixomas totalizam a metade de todos os tumores cardíacos. Geralmente são esporádicos, mas podem estar associados a síndromes autossômicas dominantes familiares. A grande maioria acomete o átrio esquerdo, porém podem estar presentes em outros locais [1]. O diagnóstico diferencial se faz principalmente com rabdomioma.

O ecocardiograma foi o padrão-ouro para o diagnóstico, porém, por se tratar de tumoração em localização não habitual, foram realizados outros exames complementares com o intuito de obter o maior número de informações possíveis como subsídio para o tratamento cirúrgico. O diagnóstico final só pôde ser confirmado pelo exame anatomopatológico após a operação (Figura 3).


Fig. 3 - Neoplasia mesenquimal de baixo grau com estroma de aspecto mixóide e células fusiformes sem atipias. Hematoxilina eosina (HE), 100X



OPERAÇÃO

Toracotomia transesternal mediana, instalação do circuito de circulação extracorpórea convencional com utilização de cânulas em veias cavas e aorta. Hipotermia a 32ºC, cardioplegia sanguínea hipotérmica, anterógrada e intermitente. Após abertura do átrio direito, encontrada grande massa com aspecto macroscópico fibroso, envolvendo parcialmente as cúspides anterior e septal. A cúspide posterior estava totalmente aderida ao tumor (Figura 4).


Fig. 4 - Aspecto intra-operatório do tumor aderido ao ventrículo direito e totalmente à cúspide posterior da valva tricúspide



Realizada ampla ressecção, preservando-se os músculos papilares e a parede livre do VD. A valva tricúspide necessitou plastia para correção e funcionalidade adequada. O tempo de perfusão foi de 83 minutos e de isquemia miocárdica, 67 minutos.

A paciente recebeu alta hospitalar no 6º dia, em uso de furosemida e captopril, devido à hipertensão arterial leve apresentada no pós-operatório. Três anos após a operação, nota-se ao ecocardiograma ausência de massa em VD e discreta regurgitação valvar tricúspide. A paciente está assintomática e sem uso de medicações.


REFERÊNCIA

1. Bossert T, Gummert JF, Battellini R, Richter M, Barten M, Walther T, et al. Surgical experience with 77 primary cardiac tumors. Interact Cardiovasc Thorac Surg. 2005;4(4):311-5. [MedLine]

Article receive on quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

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